Busca do consenso
Debates sem fim, em Copenhague, sobre mudanças do clima e emissão de gases de efeito estufa (CO2), demonstraram como o tema está mais politizado do que nunca. Poucas antes do início da 15ª Conferência das Partes, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) quis marcar posição com a revisão da desastrosa nota verde para os automóveis.
As críticas foram tantas que em 75 dias surgiram novos critérios e a substituição da pontuação de zero a dez pelo sistema de uma a cinco estrelas. Até três estrelas classificam os poluentes controlados (média entre monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio), uma estrela fica reservada a todos os motores flex e outra para a menor emissão de CO2. Várias distorções permanecem e ficam claras no estranho ranking, mas houve avanços. Pelo menos o MMA, dessa vez, chamou a participar os fabricantes de veículos e produtores de gasolina e etanol.
Será que o comprador, sabendo que todos os carros obedecem à lei, vai escolher algum 20% ou 40% melhor que o limite legal? Difícil de acreditar, em um mercado tão orientado pelo preço. O ranking apontou entre os 10 menos poluidores quatro modelos da Fiat (Idea, Palio, Siena e Stilo) com motores de 1.800 cm³ injustamente estigmatizados da Família 1 da GM, seguidos pelo Ka, Prisma e Celta (1.000 cm³), C3 (1.400 cm³), Fox e SpaceFox (1.600 cm³). Palio e Siena, por exemplo, com motor de maior cilindrada tem preferência de menos de 10% porque são versões caras.
Existe uma ideia, ainda embrionária, de adotar a chamada nota verde em substituição à cilindrada nas alíquotas do IPI. No entanto, mais racional seria utilizar o consumo de combustível. Isso fala diretamente ao bolso do motorista e de forma indireta reflete-se na diminuição da poluição tóxica e na emissão de CO2, em motores a etanol ou gasolina.
Era hora de reviver o antigo Programa de Economia de Combustível, de meados dos anos 1980, adaptado aos novos tempos. O caminho pode ser pelo recém-criado grupo de trabalho de governo e empresas do setor voltado a estimular tecnologia e inovação, aproveitando os grandes centros de desenvolvimento já existentes.
Simultaneamente à nota verde, em 1º de dezembro, saiu o ranking 2010 de consumo do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE). Em base voluntária – deveria ser obrigatória – estrearam Renault e Toyota, juntando-se à Fiat, Honda, Kia e Volkswagen. Má conduta teve a GM que abandonou o PBE, juntando-se à Ford, que nunca participou. A lista agora inclui cerca de 100 modelos, dos mais de 400 à venda. O Inmetro acertou ao ajustar em torno de 20% os dados de consumo, a fim de aproximá-los aos números obtidos no dia a dia, como se fez nos EUA.
Receberam a melhor nota Fit 1,4; Gol 1,0; Mille 1,0 e Picanto 1,0. Examinando bem os números, há diferenças mínimas entre baixa e média cilindrada, que não justificam a diferença de IPI. Picapes Strada Trekking, de 1,4 e 1,8 litro, alcançam igual marca em estrada, com etanol, comprovação da falsa rotulagem de “beberrão” do motor de maior potência. Em cidade, consome 13% mais, aceitável para quase 30 cv de diferença.
Consenso sobre o melhor caminho a seguir parece difícil, na luta surda de bastidores.
Fernando Calmon
Jornalista especializado desde 1967, engenheiro e consultor técnico, de comunicação e de mercado. |